Prólogo
Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém! Padre, perdoe-me porque pequei. Minha última confissão foi... Foi... Não me lembro quando foi minha última confissão. Parece que há mais de duzentos anos. Na verdade, foi há mais de duzentos anos. O senhor me olha como se eu fosse maluco, mas não sou. Já estive louco, e recobrei a sanidade. Depois, enlouqueci de novo, fiquei são outra vez, e assim sucessivamente. Entenda, padre, quando se vive tanto — se é possível chamar minha condição de “vida” —, há tempo suficiente para tudo: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo de colher; tempo de curar e de matar; de construir e destruir. Sobretudo, de morrer, matar e destruir. Sim, Eclesiastes — “nada de novo sob o sol” etc. Quão irônico soa uma citação bíblica na boca do demônio... Não, não sou O demônio. Quer dizer, não literalmente. Mas com certeza sou o que de mais próximo o senhor há de encontrar. Não precisa ficar com medo; não vim lhe fazer mal. Nem mesmo eu sei o que vim fazer, pois desconfio que não acredito mais em Deus. É curioso que, quanto mais coisas extraordinárias testemunho, menos em Deus creio — e mais palpável o diabo me parece. Talvez o diabo seja o lado perverso d’Ele, vai saber... O entendido de teologia é o senhor. Acho que só preciso de um ouvido solidário. Em que ano estamos mesmo? 2013? 2014? Ah, padre, já fui tão glorioso... Agora tenho de me esconder nas sombras. Nas sombras dos palácios desta “cidade maravilhosa”, é verdade, mas, não faz muito tempo, era convidado à mesa dos poderosos, em seus banquetes, e recebia reverências. É como dizem: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... Contraditório, eu? Contraditória é a existência; só a morte é unívoca e definitiva. Perfeita. Mas essa perfeição me foi negada. O que não quer dizer que, ao longo dos séculos, não tenha me tornado íntimo dela. A primeira vez que me lembro de tê-la encontrado foi na figura do meu pai. Certamente, devo ter visto algum morto antes dele; um escravo, por exemplo. Ou, quem sabe, um parente distante. Mas foi a morte do meu pai que primeiro me ficou gravada na memória. Recordo-me até hoje de vê-lo estendido no caixão, em nosso salão principal, cercado de velas. Aquele homem antes tão respeitado e até mesmo temido, ali, reduzido a um cadáver mirrado, no qual se podiam ver as marcas dos anos de decadência física e de demência; simplesmente, o corpo de um miserável após anos entrevado numa cama ou na cadeira de sol do alpendre para onde o transportávamos com cada vez menos esforço de manhã. Nos últimos meses, sequer respondia a estímulos externos, alheio a seu entorno e, quiçá, de si mesmo. O velório durou quatro dias para que parentes e autoridades políticas e religiosas pudessem beijar a mão do defunto. Figurões brotavam de todos os cantos; alguns, de Pernambuco. As mucamas, com seus abanadores, revezavam-se dia e noite ao lado do caixão, mantendo afastadas as moscas, e as coroas de flores iam se empilhando para disfarçar o mau cheiro. À noite, no pátio ao lado senzala, negros cantavam e dançavam. Disseram que era homenagem para meu pai, mas, no fundo, eu sabia que comemoravam. Não os culpo. Papai não era conhecido por ser um senhor bondoso. Era lendário o seu costume de, na Sexta-Feira da Paixão, andar pelo casarão a esmo, praguejando e ameaçando, à procura de um infeliz para açoitar a troco de nada, por puro capricho. O que não significa que, no restante do ano, os pretos gozassem de maior tranquilidade. Outro costume seu era o de estar sempre de pé ao segundo canto do galo para arrancar do leito, a chicotadas, o preguiçoso que porventura não estivesse a postos para atendê-lo, fosse homem ou mulher. Também havia duas cativas que passaram anos agrilhoadas; os primeiros deles, presas ao sobrado pelo pescoço, como cães. Uma delas, a Francisca, precisava alimentar uma onça mantida num cepo. Papai tinha um senso de humor peculiar. Certa vez, às vésperas de conceder-lhe alforria, mandou meter um clister de pimenta malagueta num escravo. E o pobre do negro tinha mais de setenta anos! Ele não se importava com a idade, como quando deixou um moleque de quatro anos em carne viva por não cuidar de uma figueira direito, e as frutas foram bicadas por passarinhos. Tudo era desculpa para açoitar brutalmente os escravos, às vezes com os carrascos se revezando no serviço, aos pares. Mas não estou aqui para confessar os pecados dele. Enfim, disse que não os culpava, mas não podia permitir que saíssem impunes. No dia seguinte ao enterro do velho, escolhi aleatoriamente quatro pretos e mandei surrá-los; depois, ordenei que passassem os próximos dias acorrentados, a pão e água. Era preciso mostrar quem mandava. Um desses pretos, de uns quatorze anos, tinha mãe — ou vó, não sei bem — e a tal veio interceder pelo coitado, que definhava na cela. Não cedi e ela vociferou umas palavras na língua bárbara dela, então a enxotei, ameaçando prendê-la com o moleque. O Damião disse que ela havia me rogado praga. Veja se pode, padre! Ele disse: “Cuidado, meu sinhô, que praga de preta pega! Milhor o sinhô se benzê”, ele disse assim. O Damião? Um escravo mais ou menos da minha idade, que me acompanhava desde a infância; sempre solícito e que ficaria comigo por muitos e muitos anos... Se me benzi? Por acaso eu era homem de me preocupar com as superstições da negraiada? Pois bem! Mas, por via das dúvidas, mandei vender aquela preta. E o garoto? Sei lá. Deve ter sobrevivido, não sei. Minha mãe morreria poucos meses depois, sem muito drama. Acho que foi de tísica. Não chegou a viver com meu pai, isto é, sob o mesmo teto. Diziam que ela sentia medo dele. Era o segundo casamento, sim, mais nova. Quando eu tinha dezesseis, tive de me mudar para o Tatuapara. Papai nunca relou em mim; foi bastante permissivo, a bem da verdade. Todos se esforçavam para realizar minhas vontades... Sem falar que não demorou para a doença se manifestar. No início, ele tinha de se amparar numa bengala, faltando-lhe equilíbrio. E se tremia todo. Esquecia o que acabara de acontecer. Mas foi um processo lento. Levariam anos até que não conseguisse se deslocar por conta própria e deixasse de responder. Eu tentava me inteirar da administração das terras, do gado, mas era muita coisa. Além disso, não gostava de tratar com os vaqueiros, aquela gente tosca. Preferia os escravos da casa, amedrontados por cada sombra, sempre dóceis. Porém, depois que o velho morreu, não tive escolha, não é mesmo? Precisava assumir os negócios da família e um morgado cujas terras se estendiam das margens do Pojuca até o sertão do Ceará e do Maranhão — àquela altura, um espólio um tanto fragmentado. Passado o luto por mamãe, decidi dar um giro pela propriedade e me apresentar ao batalhão de sesmeiros, vaqueiros, jagunços e escravos que, de um jeito ou de outro, trabalhavam para nós. Para mim, no caso. Com o sucesso da carne gaúcha, os negócios não iam bem. Minha intenção era restaurar a glória dos tempos heroicos dos sertanistas, perdida no sedentarismo perdulário das últimas gerações. Mas o plano, que me tomaria semanas, por um triz não foi abortado de véspera. Na noite anterior, tive um pesadelo e acordei febril. Sonhei que, deitado no esquife ao centro do salão, estava eu, não meu pai. Via as pessoas se aproximarem, lamentarem a morte de maneira protocolar, e tentava me movimentar, dizer alguma coisa, mas não conseguia. Com muito esforço, ergui a cabeça e olhei para meu corpo — estava como que submerso, enquanto piranhas mordiscavam e repuxavam-me as vísceras, que vazavam do ventre dissecado. A sensação era angustiante. Não sei quanto tempo durou. Quando finalmente consegui me mover e acordei, sentia-me prostrado; ardia de febre e suava frio. Chamaram Lindalva, uma velha mucama, e ela me fez beber do amargo de uma garrafada. Não sei se foi o efeito da bebida, porém, estava fora da cama em poucas horas. A jornada pela propriedade aconteceria, mesmo com um dia de atraso. E assim foi. Nos primeiros dias, pegamos um clima ameno, pois, apesar do calor, ventava e a paisagem era sempre bonita; boa para distrair dos padecimentos físicos. Apesar de tudo, ainda estava convalescendo. O mais difícil eram os trechos de mata densa, quando tínhamos de desmontar e conduzir a pé a alimária. Os problemas de verdade começaram ao chegarmos ao sertãozão, com seu ar seco e um sol de derreter miolos. Encontrar água nem sempre era tarefa simples, portanto precisávamos racionar. A roupa tornava-se um incômodo e toda a hostilidade do ambiente estava gravada no rosto vincado, encardido e sofrido dos habitantes da região. Muitos deles eram acaboclados; uns outros, mamelucos. Os pretos já não eram tão abundantes quanto no litoral. Agora, gente branca, mesmo, só metida nas casas senhoriais, onde éramos bem recebidos, com pompas e rapapés, afinal, se eles eram os senhores dos de ali, eu era o senhor de todos eles, e eles se esforçavam para agradar. Por algumas horas, era tanta fartura de quitutes e sucos, e banquetes, que era fácil esquecer que estávamos no sertão bravio. Do lado de fora, predominava o bugre precariamente civilizado, cujo estilo de vida igualava-se à existência seminômade do gado, determinada por um pasto cada vez mais raro. O que de mais característico se via na paisagem, além da mesquinhez natural da caatinga, eram casas de pau-a-pique e currais com telhados da folha de carnaúba. Íamos eu, dois vaqueiros experientes e quatro fábricas, encarregados da carga e de cuidarem das montarias. Não levei o Damião, pois achei a separação oportuna para delimitar a nova condição de senhor da Casa da Torre, descendente do próprio Caramuru! Eu não era mais o filho do dono, o sinhozinho. Encarei aquela viagem como um rito de passagem, sem desconfiar do quão dramático seria.

Curiosidade: este texto é de algum livro seu?